Todo filme é “filme de psicólogo”! -expandindo suas possibilidades de intervenção com a utilização de filmes e afins (Parte 1)

Oi, pessoal!

Antes de começar a compartilhar um pouco do meu trabalho com filmes, séries, músicas e histórias, acredito ser importante falar um pouco o que fundamenta as intervenções que desenvolvo. Meu objetivo principal é que você consiga, a partir desse texto, aprender a transformar esses recursos em estratégias de intervenção na clínica. E mais que isso, permita-se estar plenamente atento ao que vivencia e ser transformado por isso.

Antes de qualquer questão teórica, acho válido trazer para vocês um dado sobre mim: sou absolutamente viciada em filmes e séries. Aprendi com a minha família a assistir sempre  a filmes e embarquei de cabeça no vício das séries. O interesse foi tanto que inclusive já publiquei sobre isso em um artigo e no livro que publicamos aqui em São Luís. Essas novas reflexões que compartilharei com você são um pouco do que hoje apresento no minicurso que ministro sobre o tema e sobre o que aprendo todo o dia com meus filmes e meus clientes 🙂

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Então, vamos lá!

Nós, terapeutas, podemos beneficiar os nossos clientes quando ampliamos as nossas estratégias de intervenção. E um dos motivos é que o terapeuta não precisa se limitar apenas ao conteúdo literal da fala do cliente. Ele pode ensinar o cliente a usar palavras/expressões aprendidas em sua história de vida quando esse apresentar dificuldades em falar sobre o problema e discriminar quais mudanças são necessárias. As metáforas são as palavras/expressões que compartilham alguma semelhança com o novo contexto (no caso, a terapia e as mudanças em sua vida)  (cf. Skinner, 1978).

Por exemplo: Posso estar confusa sobre minha vida, mas se eu disser que estou “como uma borboleta”, o que você pensa imediatamente? (Pense na resposta antes de continuar lendo)

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Talvez eu não soubesse como explicar sobre minha vida, mas se eu disser algo sobre borboletas – e levando em conta que culturalmente aprendemos a relacioná-las com a metamorfose (contexto já conhecido tendo a transformação como propriedade semelhante) – pode ser que você compreenda um pouco o que quero dizer.O cliente também pode não entender o motivo do terapeuta tocar em assuntos desagradáveis nas sessões (já que a terapia é para “que eu me sinta bem”), mas pode ampliar sua compreensão quando eu digo a ele que “se você for ao dentista (contexto já conhecido) e ele não tocar no dente dolorido (dor como propriedade semelhante), você se sentirá enganado”.

Para compreender um pouco melhor como funcionam as metáforas e quais outras vantagens do uso delas, recomendo a leitura do belíssimo texto da Renata (que acredito ser um daqueles textos de guardar para a vida).

Mas quero destacar que para desfrutar das vantagens da utilização de metáforas, é necessário que o terapeuta treine

  1. permanecer atento aos interesses do cliente e aos detalhes da sua vida similares à vida dele;
  2. ficar sensível aos detalhes daquilo que ele mesmo assiste/escuta/lê, etc.;
  3. flexibilizar o seu próprio controle verbal (levando em conta que se o ser humano pode interagir com sua história a partir do que diz sobre ela de forma literal, inserir novas palavras e relações para além do que o cliente diz pode ajudá-lo a desenvolver flexibilidade psicológica);
  4. desenvolver habilidades terapêuticas para utilizar os interesses e história do cliente como sua própria ferramenta de transformação.

Comecei a pensar sobre isso a partir de um texto da Wielenska (outro pra transformar em um quadro e guardar para a vida) sobre desenvolvimentos de habilidades terapêuticas em terapeutas iniciantes. E no trecho abaixo, acredito que ela descreve como se dá esse treino:

Terapeutas deveriam ser pessoas atentas ao mundo, que apreciam ouvir histórias, independentemente de hora, lugar ou do narrador, e que aprendem com elas, conseguindo se apropriar das mais interessantes para transformá-las em úteis metáforas, dicas, sínteses ou análises de comportamento (…) (WIELENSKA, 2009, p. 290)

Lindo, né? Antes de tudo, gosto de dizer que isso é um treino para a vida. Assistir, ouvir, ler, apreciar… são excelentes estratégias para ampliar o nosso repertório, sejamos nós terapeutas iniciantes (e novinhos, como eu, que podemos não ter tantas experiências de vida, como nossos clientes) ou terapeutas experientes, que querem sempre manter-se atualizados e conectados com os seus clientes. Acredito muito que precisamos nos expor a esses recursos, aprender com a vida e trazer para os nossos clientes, deixando que eles modelem nossos repertórios – o que provavelmente farão por meio do reforçamento positivo, tendo em vista que estarão se comunicando por meio daquilo que os interessa e podem se sentir mais acolhidos pelo terapeuta que demonstra, além de um vasto repertório cultural, interesse pela vida deles.

Então, onde entram os filmes?

Desde a década de 20 do século passado, já começaram a ser desenvolvidos os primeiros trabalhos que verificavam o efeito de filmes no comportamento dos espectadores (GROBLER, 2012; OLIVA; VIANNA; NETO, 2010; POWELL, NEWGENT, 2010). Como não é o objetivo aqui descrever a cinematerapia, vou deixar algumas referências no final (e quem sabe em outra oportunidade escrevo alguma coisa sobre isso). O objetivo aqui é explicar quais os benefícios do uso dos filmes e como me utilizo deles no meu trabalho, para que vocês acompanhem as próximas análises que eu fizer e façam as suas próprias.

Para isso, pretendo responder (ou não…) a três perguntas: a) quais as vantagens de usar filmes? b) quais os benefícios para cliente e relação terapêutica? c) quais filmes utilizar. Vou começar nesse post e terminar em outro, pra não cansar você! rsrs

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Dentre as diversas vantagens apontadas na literatura, destaco três:

  1. Em nossa cultura, assistir a filmes e falar sobre eles é algo muito valorizado. As indicações de filme despertam nossa curiosidade e normalmente as pessoas não se recusam a colocar em prática essa estratégia (sem contar que são acessíveis e rápidos). Solicitar que o cliente assista a um filme e pense sobre ele pode ser mais fácil em um primeiro momento que pedir que ele faça alguma mudança maior.
  2. Ao assistir a um filme, nosso organismo é afetado como um todo. Eles nos fazem pensar (ainda que não seja uma “lição de vida), ter diversas sensações corporais, além do próprio contexto onde assistimos a eles poderem nos afetar de formas diferentes (cinema, companhia das pessoas, conforto de casa, etc). Consegue pensar em como essa vantagem pode se tornar um benefício? (Vou deixar pra você pensar e respondo no próximo)
  3. Tem filme para todos os públicos e gostos. E esse para mim é o fator mais incrível e útil (e você vai me ver falando sobre isso mais tarde e sempre): filmes para terapia não precisam ser os “filmes que todo psicólogo tem que assistir”. Podemos usar os filmes de terror, cult, franceses, indianos, comédia, enfim. Qualquer filme que possa corresponder ao seu objetivo e ao interesse do cliente.

(BERG-CROSS; JENNINGS; BARUCH, 1990; DERMER; HUTCHINGS, 2000; GROBLER, 2012; HESLEY; HESLEY; 2001; OLIVA; VIANNA; NETO, 2010; WOLZ, 2005)

Gostou desse papo e da nossa proposta? Então continue nos acompanhando. No próximo post vou falar um pouco dos benefícios de utilizar filmes na nossa prática. Conhecer esses benefícios é fundamental inclusive para aprender a analisar e utilizá-los em intervenções terapêuticas.

Espero que já tenha dado pra você começar a pensar um pouquinho em como usar o filme do final de semana em uma poderosa ferramenta! Eu vou encerrar por aqui e acreditem se quiser: preciso preparar uma sessão sobre um personagem de Stranger Things para essa semana.

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Deixo um agradecimento especial a Renatinha, que revisou o texto e fez diversas contribuições :*

REFERÊNCIAS (deixo logo à disposição as que utilizarei nesse post e no próximo)

BARTSCH, A.; APPEL, M.; STORCH, D. Predicting Emotions and Meta-Emotions at the Movies: The Role of the Need for Affect in Audiences’ Experience of Horror and Drama. Communication Research. v. 37, n. 2, p. 167–190. 2010.
BERG-CROSS, L.; JENNINGS, P.; BARUCH, R. Cinematherapy: theory and application. Psychotherapy in Private Practice. v. 8, n. 1, p. 135–157. 1990.
CARNEIRO, P. L.; MEDEIROS, C. A. de. Análise funcional de propagandas de televisão sobre a indústria de cervejas. Universitas: Ciências da Saúde. v. 3, n. 2, p. 207–225. 2005.
DAMIANI, K.; RUBIO, A. R.; CHIPPARI, M. Utilizando filmes no ensino de análise experimental do comportamento: relato de uma experiência. Psicólogo inFormação. v. 4, n.  4, p. 53–62. 2000.
DERMER, S. B.; HUTCHINGS, J. B. Utilizing movies in family therapy: Applications for individuals, couples, and families. The American Journal of Family Therapy. v. 28, 163–180. 2000.
FLEMING, M.; BOHNEL, E.. Use of Feature Film as Part of Psychological Assessment. Professional Psychology: Research and Practice. v.. 40, n. 6, p. 641–647. 2009.
GRAMAGLIA, C. et al. Cinematherapy in the day hospital treatment of patients with eating disorders: Case study and clinical considerations. The Arts in Psychotherapy. v. 38, p. 261– 266. 2011.
GROBLER, L. An exploration of the use of positive psychology movies to enhance well-being. Dissertação – North-West University. Potchefstroom. 2012.
HESLEY, J. W.; HESLEY, J. G. Rent two films and let’s talk in the morning: Using popular movies in psychotherapy. 2 ed. New York: Wiley & Sons. 2001. (Originalmente publicado em 1998)
MEDEIROS, C. A. de. Que a força esteja com você: Uma visão analítico-comportamental da saga de Guerra nas Estrelas. In: DE-FARIAS, A. K. C. R.; RIBEIRO, M. R. (org.). Skinner vai ao cinema. v. 1. 2 ed. p. 45–69. Brasília: Instituto Walden4. 2014.
OLIVA, V. H. S.; VIANNA, A.; NETO, F. L. Cinematerapia como intervenção psicoterápica: características, aplicações e identificação de técnicas cognitivo-comportamentais. Revista de Psiquiatria Clínica. v. 37, n. 3, p. 138–144. 2010.
PINHEIRO, R. A utilização de metáforas como recurso terapêutico. 2012. Disponível em: http://comportese.com/2012/02/a-utilizacao-de-metaforas-como-recurso-terapeutico/. Acesso em: 04 dez. 2015.
PORTADIN, M. A. The use of popular filme in psychotherapy: is there a “cinematherapy”? Tese – Saint Joseph’s University. Massachusetts. 1997.
POWELL, M. L. NEWGENT, R. A.; LEE, S. M. Group cinematherapy: using metaphor to enhance adolescent self-esteem. The Arts in Psychotherapy. v. 33, p. 247–253. 2006.
POWELL, M. L.; NEWGENT, R. A. Improving the Empirical Credibility of Cinematherapy: A Single-Subject Interrupted Time-Series Design. Counseling Outcome Research and Evaluation. v. 1, n. 2, p. 40–49. 2010.
ROGGE, R. D. et al. Is Skills Training Necessary for the Primary Prevention of Marital Distress and Dissolution? A 3-Year Experimental Study of Three Interventions. Journal of Consulting and Clinical Psychology. v. 81, n. 6, p. 949-961. 2013.
SKINNER, B. F. O comportamento verbal. São Paulo: Cultrix. 1978.
WEDDING, D.; NIEMIEC, R. M. The clinical use of films in psychotherapy. Journal of Clinical Psychology. v. 59, n. 2, p. 207–215. 2003.
WIELENSKA, R. G.  Jovens terapeutas comportamentais de qualquer idade: estratégias para a ampliação de repertórios insuficientes. In: WIELENSKA, R. C. (Org.): Sobre comportamento e cognição: Desafios, soluções e questionamentos. v. 24, cap. 28. Santo André: ESETec Editores Associados, 2009.
WOLZ, B. E-motion Picture magic: a movie lover’s guide to healing and transformation. Centennnial: Glenbridge Publishing. 2005.

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Nosso primeiro croqui

Esta é a nossa primeira postagem do blog e nada mais justo que falar da ideia de criá-lo.
(Vale mencionar, de início, que a ideia original era que fossem duas postagens individuais. Mas como muitas informações são parecidas – ponto para a sintonia entre as autoras! Rs –, decidimos fazer apenas um).

A primeira razão, o inegável para nós: gostamos de escrever. De verdade. Fazemos isso por prazer. Eu, Renata, tenho um aplicativo no celular chamado Journey (super indico!), no qual posso escrever textos e adicionar fotos como se fosse um diário. Às vezes escrevo lá, só pra organizar as ideias, mesmo que ninguém (muitas vezes nem eu mesma) vá ler. (Eu, Jhessica, adorei a ideia e vou aderir!)

Nós duas também já tivemos blogs, mas sempre caiam no esquecimento. Eu, Renata, dificilmente divulgava meus blogs e, quando escrevia, não conseguia me abrir completamente ou demorava muito elaborando o texto, fatores que influenciaram na sua interrupção. Com o tempo, fui adquirindo mais conhecimentos sobre Análise do Comportamento e colaborando com artigos e capítulos de livro. Um texto que escrevi no final de um curso me rendeu o convite para participar de um blog grande, com orientações e cronogramas bem definidos. Tudo isso foi um aprendizado maravilhoso, mas somado a outras contingências, como o mestrado, me levou a encerrar minha participação no blog.

Já eu, Jhessica, tinha o “Típico e Peculiar”, onde fazia postagens sobre temas diversos (como moda, cinema, reflexões e humor). Gostava muito de publicar e sempre compartilhava com os amigos. Nos últimos anos, com o final da graduação e início da atuação profissional, aumentou o meu interesse em publicar sobre essas e outras questões, agora com a ênfase na Análise do Comportamento. Cheguei a publicar artigo (aqui) e capítulos de livro sobre cinema e ACT (confira aqui), além de dar algumas aulas na universidade, minicursos e apresentações em congresso. Mas com a alteração da rotina e sobretudo a ampliação do uso de redes sociais, comecei a direcionar meus registros informalmente nos meus próprios perfis. E quem me acompanha sabe que estou sempre dando uma dica de filme, compartilhando algumas reflexões ou sugerindo algumas intervenções. Mesmo assim, eu sempre senti falta de algo mais organizado, onde pudesse recorrer quando precisasse e não sentisse que aquilo estivesse sendo desperdiçado.

E aí entra a segunda variável (a primeira foi gostarmos de escrever): nós gostaríamos de escrever de maneira tranquila e relaxada, mantendo o caráter prazeroso da atividade. Devido às características dos sites e periódicos para os quais já escrevemos, os textos deviam ser bem elaborados, o que era um excelente treino, mas imagina o trabalho que dava? Acabava que o excesso de tarefas paralelas, as características da tarefa e os prazos deixavam tudo um pouco cinza. Vale ressaltar que consideramos muito importante que qualquer produção deva ser bem elaborada e fundamentada na teoria que defende (e nosso treino foi totalmente para isso), mas no fundo, a gente acredita que existem formas diferentes de fazer isso, e dessa vez vamos optar por algo que nos permita essa flexibilidade e que garanta nossa motivação.

Por fim, a nossa praia é clínica.

Eu, Renata, desde o ensino médio queria ser psicóloga clínica e professora, e, mesmo me permitindo conhecer as outras áreas de atuação, meu interesse continua concentrado nessas duas.
Eu, Jhessica, confesso que meu plano não era ser psicóloga (como digo, meu plano A é ser artista! Rsrs). Mas quando decidi cursar, desde o começo eu sabia: seria psicóloga clínica, compartilharia sempre daquilo que aprendi e encontraria uma forma de ser criativa nessa prática.

Felizmente, estamos fazendo o que queremos hoje. Temos a felicidade de dizer que trabalhamos com o que gostamos, da forma como acreditamos. Estamos sendo direcionadas pelos nossos valores. E isto nos dá mais vontade ainda de escrever.

Temos a qualidade ou o defeito de pensar muito no que fazemos e em como podemos fazer isso melhor. No dia-a-dia, nos deparamos com atividades ou situações que nos fazem parar e pensar em como podemos aplicá-las no consultório ou na sala de aula para alcançar objetivos terapêuticos e pedagógicos. Algumas vezes salvamos, tiramos prints, compartilhamos no grupo dos amigos do whatsapp ou registramos no bloquinho ou celular. Mas a verdade é que usualmente não tornamos a buscar o recurso, mesmo frente à situação para a qual nos programamos. É uma pena, porque muitas vezes a gente precisa trabalhar um aspecto X na terapia ou em sala de aula, e já ter o recurso em mãos facilita bastante, no lugar de ir buscar estratégias a cada demanda diferente.

Enfim, esse é o terceiro motivo, registrar e compartilhar atividades, situações e ideias que temos para intervir na clínica e para ensinar Análise do Comportamento aos nossos alunos, amigos e clientes.

E, por reforçamento positivo e estratégia de autocontrole, decidimos compartilhar desse projeto uma com a outra. Eu, Renata, com a Jhessica, terapeuta analítico-comportamental cheia das ideias, cinéfila, inteligente e gaiata. E eu, Jhessica, com a Renata, terapeuta analítico-comportamental, mestra, incrível, e quando ela era ainda minha monitora na graduação eu dizia “quando crescer quero ser igual a ela”.

Nosso objetivo é compartilhar e discutir com vocês o que descobrimos e aprendemos, de maneira tranquila e relaxada, sem muita preocupação com fornecer respostas ou produzir de forma sistemática e impecavelmente correta – mesmo que isto signifique nos expor e enfrentar nossas próprias inseguranças e limitações, em prol de uma atuação cada vez melhor na área.

É um desafio para nós, sempre tão exigentes com aquilo que fazemos… Mas isso faz parte da nossa jornada de nos tornarmos mais flexíveis e mais direcionadas por aquilo que valorizamos.

Você é convidado para compartilhar da nossa caminhada, das nossas reflexões, das nossas ideias… do nosso croqui!